Produção de
castanha despenca. Com esse título a Tribuna do Norte, publicou matéria dos
reporteres Hudson Helder e Andrielle Mendes sobre a redução da produção de
castanha do estado, em 2012. Veja a reportagem na íntgegra:
Produção de castanha despenca
Hudson
Helder - Chefe
de Reportagem
A praga da mosca branca
e a seca podem ter reduzido a produção potiguar de castanha de caju em até 70%
no ano passado. A crise na produção atingiu a todo o Nordeste e afeta
diretamente a indústria de beneficiamento. A Iracema, maior empresa
beneficiadora dessa matéria-prima no Rio Grande do Norte, instalada no município
de São Paulo do Potengi, passou a importar castanhas de seis países africanos. A
redução na oferta a partir dos três maiores produtores - Ceará, Piauí e Rio
Grande do Norte - obrigou a empresa a conceder férias coletivas de três a quatro
meses aos funcionários da unidade de beneficiamento instalada em São Paulo do
Potengi.
Adriano
Abreu
Amêndoas de castanha no mercado popular em Natal:
praga da mosca branca e seca afetaram a produção de caju no
Nordeste
A unidade de produção precisou ser adequada à crise
pela qual passa o setor primário do agronegócio da castanha de caju. A produção
e oferta do produto, no ano passado e início deste ano, não alcançou 40% da
média anual no Rio Grande do Norte, de forma que a empresa antecipou a
importação do produto nos cultivares africanos para não ter que parar a fábrica
e dispensar funcionários.
Inicialmente
a empresa, que tem outras três unidades de beneficiamento no estado do Ceará,
havia projetado a importação de 60 mil toneladas de castanha, mas com o
agravamento da crise nas áreas de cultivo do Nordeste brasileiro modificou essa
projeção para compra de 100 mil toneladas aos países da África.
"Não
está descartada a necessidade de ampliarmos essa compra. A capacidade instalada
da fábrica é para beneficiamento de 400 mil toneladas/ano, e a produção
brasileira é de 320 mil toneladas. Ou seja, mesmo que estivéssemos com a
produção regular no campo, haveria eventual necessidade de importação do
produto", disse o engenheiro agrônomo e responsável pelo setor de compra de
matéria-prima da Iracema, Orion Gomes.
Em
2012, a empresa praticamente não recebeu matéria-prima oriunda dos produtores
potiguares. Essa produção, afetada especialmente pela estiagem e a praga da
mosca-branca, ficou mesmo com os pequenos beneficiadores que atendem basicamente
a demanda da região onde estão localizados.
A
crise no setor primário da cajucultura, segundo o engenheiro agrônomo,
transcende as questões climáticas ou a influência das pragas nos cultivares do
Rio Grande do Norte. "Há um problema sério, que é a falta de continuidade de uma
política pública voltada ao setor produtivo. Os últimos gestores não têm tratado
a cajucultura considerando a importância dela para a economia do Estado. O Rio
Grande do Norte era o principal produtor; hoje está em terceiro, perdendo espaço
já para o estado do Piauí", alertou. "Mas é uma crítica construtiva, para que
depois não se perguntem porque acabou a atividade".
À
medida que importa a matéria-prima, o Rio Grande do Norte perde também noutro
flanco da geração de receita porque a operação é feita via Porto do Mucuripe, em
Fortaleza (CE). "O preço da castanha importada é competitivo. Empresário algum
faria uma operação dessas se fosse para operar no vermelho", ressalta o
engenheiro da Iracema, Orion Gomes.A Iracema emprega cerca de 400 pessoas
somente na unidade de beneficiamento de São Paulo do Potengi, um município com
população de aproximadamente 16 mil pessoas. As quatro unidades, juntas,
empregam hoje 2.200 trabalhadores.
Problemas
afetam toda a cadeia produtiva
Andrielle
Mendes - Repórter
A Iracema Indústria e Comércio de Castanhas de Caju
não é a única empresa afetada pela escassez de matéria-prima no Rio Grande do
Norte. Segundo Luiz Gonzaga Costa, analista de Mercado de Produtos Agrícolas da
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no RN, a queda na produção de
castanha, intensificada com o agravamento da seca, atinge toda a cadeia
produtiva.
Segundo
o analista, o agravamento da seca teria levado várias fábricas a fecharem as
portas no estado. "Quem não fechou, reduziu a produção, demitiu funcionários e
está com até 50% de sua capacidade ociosa", afirma. A Secretaria Estadual de
Agricultura e Pesca estima que cerca de 150 mil pessoas estejam sendo afetadas
direta ou indiretamente com a queda na produção de castanha no estado. A
estimativa, segundo José Simplício, secretário interino, não inclui a mão de
obra empregada nas fábricas.
De
acordo com levantamento prévio da Secretaria, a produção de castanha de caju
pode ter caído até 70% em 2012 só no Rio Grande do Norte. O percentual é menor
apenas que o registrado em 1993, quando a produção caiu 80% em função da seca.
Os prognósticos, afirma Luiz Gonzaga, não são animadores. O RN, que já chegou a
produzir 50 mil toneladas de castanha de caju por ano, não ultrapassou a marca
das 15 mil toneladas no ano passado. A produção pode cair ainda mais, se não
chover, alerta Gonzaga.
Para
o analista, a política de incentivo à cajucultura no RN não tem atingido os
resultados esperados. "É preciso mais apoio", cobra. A Secretaria de Agricultura
reconhece o problema e afirma que vai reforçar o programa de recuperação de
pomares, agora abrigado dentro do programa RN Sustentável. Segundo Simplício, o
governo investirá entre R$ 10 milhões e R$ 12 milhões na cadeia produtiva do
caju. O dinheiro será utilizado, entre outras coisas, para preparar o solo,
distribuir mudas, adubar pomares e renovar a copa dos cajueiros. Os projetos,
segundo ele, começam a ser executados ainda este ano. O secretário reconhece
que a distribuição de mudas iniciada anos atrás foi ineficiente e confessa que
os recursos destinados ao setor nos últimos anos foram 'limitados'.
Enquanto
as ações governamentais não saem do papel, os empresários encontram na
importação uma alternativa para continuar produzindo. Segundo dados do
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), levantados
por Luiz Gonzaga, o Brasil importou 51,5 mil toneladas de castanha de caju em
2012, o maior volume já importado pelo país. Deste total, 95% foi para o Ceará,
principal beneficiador de castanha no Brasil. Das 14 grandes indústrias de
beneficiamento de castanha de caju, 11 estão lá.
O
RN ficou com 3,1 mil toneladas do que foi importado pelo país. As três
indústrias localizadas no estado, observa José Simplício, tem capacidade para
beneficiar até 70 mil toneladas por ano. "Não tem outra saída. O empresário tem
que importar".
Tanto
Luiz Gonzaga, da Conab, quanto José Simplício, da Agricultura, discordam dos
números apresentados pela Iracema Indústria e Comércio. Para Luiz Gonzaga, a
fábrica, sozinha, não seria capaz de importar o dobro do que o país importou no
ano passado. Simplício acrescenta que a capacidade de beneficiamento das
indústrias de mesmo porte não ultrapassa 20 mil toneladas ano.
INCÊNDIO
Da TN
Online
Um incêndio por volta de meio-dia de ontem atingiu
a fábrica de castanhas no município de São Paulo do Potengi. De acordo com o
tenente Cristiano Couceiro, do Corpo de Bombeiros, a prefeitura da cidade
auxiliou os trabalhos da corporação com um carro pipa para controlar o fogo.
Segundo a tenente Denise, a causa do incêndio ainda está sendo averiguada. O que
se sabe é que teve a ver com a casca da castanha, que, quando madura,
apresenta-se dura e com um óleo viscoso, cáustico e inflamável. O corpo de
bombeiros confirmou que o incêndio foi de média-proporção, atingindo extensa
área na localidade. Não houve registro de vítimas. A reportagem tentou, sem
sucesso, contato com a empresa na tarde de ontem.
Fonte: Tribuna do Norte - sábado, 9 de fevereiro de 2013